‘CONEXÃO DIVINA’: casal lança igreja online para circular pelo Brasil

Foram pelo menos quatro repetições do movimento de entrar e sair do estúdio de gravação. Depois do “ok” da equipe de filmagem, um auxiliar abria a porta corta-fogo para que o casal surgisse em contraluz. Uma leve camada de fumaça artificial sublinhava o efeito dramático da cena, a banda e um coral alinhavavam: “Hallelujah”, cantavam.

De mãos dadas, os pastores Bruno Soares e Ana Neric caminharam até o centro da cena. Em volta deles, cerca de 20 músicos. Mulheres e homens jovens, com figurino moderno — de tons neutros, escuros —, alguns com cabelos black power, tranças coloridas. Naquela tarde, 40 pessoas estavam mobilizadas para a gravação de mais um culto da Tenda Worship Church, uma igreja exclusivamente online, lançada em abril, em São Paulo.

“Há um outro na fornalha”, dizia o pastor, com as mãos abertas, olhando para uma câmera. Ele gravava uma das chamadas de divulgação do vídeo, que será postada nas redes sociais poucas horas antes da estreia do filme completo. Tudo é exibido no YouTube.

Encontros

O empresário da área de marketing Bruno Soares, 32, foi dependente de cocaína durante uma década. Mudou-se de São Paulo para Goiás para se tratar do vício. Passou, então, a ler a Bíblia e, depois, iniciou a formação em Teologia — que durou cinco anos. “Deus une pessoas e propósitos”, acredita.

Nesse meio-tempo, em uma viagem a Florianópolis, conheceu a designer de interiores Ana Neric, 25, sua esposa e também pastora da igreja. “Quando nos conhecemos, eu já estava num processo de preparação. Quando a levei para igreja, ela gostou, se sentiu bem, e decidimos nos entregar”, lembra.

“No início, eu falava que era lavagem cerebral”, complementa a moça. “Aí depois, por curiosidade, fui ao culto com ele e gostei. Comecei a ter um relacionamento de intimidade com Deus — que foi me revelando ali o que era correto — e me aprofundando na Bíblia.”

Ex-integrante da Bola de Neve Church — igreja evangélica liderada por um pastor surfista –, o casal, a princípio, queria manter uma tenda fixa em Santana de Parnaíba, na Grande São Paulo. Chegaram a comprar a estrutura e preparar o terreno, mas os planos mudaram por causa dos processos burocráticos locais.

“Não saiu a liberação do alvará. E aí chegaram pessoas próximas da política e me falaram para procurar prefeito e vereador [para negociar]”, conta o pastor. “A partir do momento que eu como pastor procuro política, a igreja acaba não sendo igreja. Por revelação de Deus, decidi baixar a tenda.”

Os entraves foram a gota d’água para a repulsa de Soares a qualquer aproximação da política à fé. “Não se mistura”, diz. “Fui um dos poucos [pastores] que se posicionaram no Instagram do Bolsonaro contra a reabertura das igrejas, na pandemia. Hoje o mundo tem pessoas desempregadas, sem ter o que comer, que perderam emprego e familiares, mas se o momento é pra ficar em casa, ficamos em casa. Vimos igrejas lotando não pela situação dos fiéis, mas pelos pastores que dependem da rede da igreja.”

Segundo o pastor, nem ele nem a esposa recebem salário da Tenda.

Viagem pelo Brasil

A estreia do primeiro culto 100% virtual foi na Páscoa deste ano. Na sala de casa, Soares, Neric e um grupo de amigos fizeram a primeira gravação. “Tentaram nos parar como igreja física, mas não conseguirão nos parar como igreja na internet. Glória a Deus”, reclamava o pastor no início do culto.

Foi numa revelação, diz Soares, em que Jesus sinalizou a ideia de circular com a pregação — como faziam os apóstolos. De Santana de Parnaíba, a Tenda foi para Balneário Camboriú, Santa Catarina, e de lá saiu em andança por outros estados brasileiros, gravando em cenários belíssimos, como no Rio Janeiro, com o Pão de Açúcar de fundo, e no Largo do Convento de São Francisco, no Pelourinho, em Salvador.

Na capital baiana, em abril, aliás, os integrantes da Tenda pegaram covid-19. “Passamos noites muito mal, guerreando, em jejum. Eu, Ana e toda a equipe pegamos [a doença] e fomos passando pra todo mundo. Voltamos para casa, ficamos duas semanas parados, perdi olfato, paladar”, afirma o pastor, que se refere à contaminação como uma “guerra espiritual”.

Internacionalização

A Vila Leopoldina é um dos bairros paulistanos que concentram estúdios de gravação para TV, cinema e publicidade. Num desses, a Tenda Worship Church organizou o culto que vai ao ar no final de julho. É também o primeiro, em três meses, filmado em ambiente fechado.

“Vamos intensificar mais a obra na igreja aqui em São Paulo, onde todo corpo de Cristo que serve no vídeo e na música está reunido”, explicava o pastor ao TAB, ainda no camarim — uma sala pequena, onde duas câmeras nos filmavam e dois refletores esquentavam o ambiente. A ideia deles é gravar pelo menos uma vez por mês na cidade. “Mas não é uma simples gravação de novela, é um culto”, pondera.

Apesar de nova, a igreja online já tem mais de 170 mil visualizações no canal oficial. O público, segundo o pastor, tem idades de 15 a 80 anos. “Minha tia, que tem artrose e não consegue ir até a igreja física e ficar sentada no banco, assiste”, diz ele. Ainda assim, a linguagem e o visual adotados pelo grupo apostam nitidamente em um público jovem.

A começar pelo estilo dos líderes. “Você vai ver um pastor louco”, dizia Bruno Soares, ao telefone, dois dias antes, se referindo às tatuagens e ao jeito de se vestir. Ele usa o cabelo impecavelmente penteado, tênis colorido, tem pele lisa, lábios carnudos e dentes branquíssimos. “Já tive piercing e descoloria o cabelo”, brinca.

O que também não dá para passar despercebido na Tenda é que se fala, recorrentemente, o inglês. Das 11 músicas cantadas no louvor daquele culto, por exemplo, cinco eram no outro idioma. “Worship quer dizer ‘adorar’, ‘adoração'”, explica o pastor, em tom didático. “Daí o nome ‘tenda de adoração’, e coloquei o ‘church’, porque a palavra ‘igreja’ às vezes assusta as pessoas.”

Nada por acaso, é verdade. A Tenda já nasceu com sonhos altos. Na próxima semana, os pastores se mudam para o México. Ana Neric pretende engravidar, e o casal acha que no outro país a qualidade de vida é melhor do que aqui.

“A igreja 100% online não tem barreiras. Independente de onde estivermos, faremos culto a Deus. Vamos manter os cultos no Brasil pelo menos uma vez por mês. E, depois, quem sabe, vamos fazer no México, nos Estados Unidos”, antecipa a pastora. “O bom é não ter um espaço físico.”

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