Morte de filha de Mandela marca surto da Covid-19 na África do Sul

Em fevereiro de 1985, Zindzi Mandela, à época com 24 anos, foi protagonista de um dos momentos icônicos do movimento contra o apartheid sul-africano.

A um estádio lotado na favela de Soweto, em Johannesburgo, ela leu uma carta de seu pai, Nelson Mandela, em que rejeitava uma oferta do governo para libertá-lo da prisão em troca do fim dos protestos contra o regime supremacista branco.

“Minha liberdade e a liberdade de vocês não podem ser separadas”, disse ele à multidão, pela voz da filha.

Na última segunda-feira (13), o país de novo se comoveu com Zindzi ao ser anunciada sua morte, aos 59 anos. Ela tinha Covid-19.

O fato tornou-se simbólico de um momento em que a África do Sul registra a subida vertiginosa do número de contaminados e mortos pelo coronavírus, num processo que outras partes do mundo já viveram.

Até o mês passado, a sensação era de que a pandemia estava de alguma forma poupando o continente mais pobre do planeta. Mas a curva disparou na África do Sul na segunda metade de junho, passando de 1.300 mortes para perto de 5.000 nesta sexta (17).

Da mesma forma, o total de casos disparou, e o país, com 324 mil contaminados, já é o sétimo com maior número de infectados no mundo oficialmente. Há um consenso de que o número real é bem maior.

A nova realidade fez o governo retomar medidas duras que haviam sido adotadas nos meses iniciais da pandemia e que depois acabaram relaxadas.

Uma das mais controversas é a proibição da venda de bebidas alcoólicas, para tentar conter os altos índices de internação hospitalar causadas por doenças ou acidentes derivados do seu consumo, liberando espaço para doentes do coronavírus.

A justificativa não convenceu a associação que reúne os comerciantes de bebidas, que, num gesto incomum, ameaçaram desafiar a ordem do presidente Cyril Ramaphosa.

“[Ramaphosa] não nos deixa escolha a não ser buscarmos obter nossos meios de sobrevivência contra a Covid-19 e as dificuldades econômicas que o governo nos impõe”, disse comunicado do Conselho Nacional de Vendedores de Bebidas Alcoólicas, que reúne 34 mil estabelecimentos.

A proibição da venda, de qualquer forma, tende a ser inócua, uma vez que é quase impossível fiscalizar pequenos mercados em comunidades pobres do país.

O alerta para a “tempestade” que chegava já havia sido dado na semana passada pelo ministro da Saúde, Zweli Mkhize.

“Neste momento, não é mais uma questão de anunciar números de casos confirmados. Estamos no ponto em que são nossos pais, mães, irmãos, irmãs, amigos próximos e camaradas que são infectados”, declarou.

Nesta sexta, ele anunciou um programa nacional de testagem, que inclui o mapeamento de todos os que tiveram contato com infectados. Também reforçou a necessidade de pessoas com Covid-19 ficarem em isolamento.

O lobby dos donos de lojas de bebidas contras as medidas restritivas não é o único. Setores como turismo, restaurantes e escolas também protestam contra a intenção do governo de novamente fechá-los, como já ocorreu no início da crise.

Segundo um estudo publicado na quinta (16) por um consórcio de cinco universidades sul-africanas, cerca de 3 milhões de empregos já foram perdidos em razão da pandemia no país, a maioria no setor informal. O desemprego formal no país já ultrapassava os 50% antes mesmo da crise sanitária.

As previsões mais otimistas são de que a curva da doença no país só comece a se estabilizar na segunda quinzena de agosto. A dúvida é se até lá o sistema de saúde do país conseguirá aguentar.

No Chris Hani Baragwanath, maior hospital público da África, com 3.000 leitos, já há falta de oxigênio e ventiladores.

Segundo uma enfermeira ouvida pela Associated Press, a instituição, localizada em Johannesburgo, está sobrecarregada com a chegada de pacientes nas últimas duas semanas. Com a ala reservada para os atingidos pela pandemia saturada, novos doentes com Covid-19 são internados em outras áreas do hospital.

O aumento nos casos de coronavírus tem ocorrido em praticamente todas as partes do continente. Depois da África do Sul, o país mais afetado é o Egito, em que os casos passam de 85 mil e as mortes superam 4.100. Em locais como Nigéria e Gana, os casos dobraram no último mês.

Segundo analistas, a chegada tardia do vírus no continente se deve à sua menor integração à economia e à malha aeroviária globais, o que deu a falsa impressão de que a África escaparia dos índices trágicos de outras partes do mundo. Essa ilusão agora foi em larga medida desfeita.

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