O que fazer para evitar nova crise energética e não deixar a luz tão cara?

A maior seca em 90 anos, que deixou a conta de luz mais cara, está sendo interpretada por especialistas como um dos sinais de que fenômenos climáticos devem acontecer com mais frequência do que no passado. E, diante disso, não dá para ficar reclamando do tempo: há medidas que governo e sociedade podem colocar em prática agora para diminuir o risco de faltar energia no futuro.

Especialistas identificaram cinco ações que ajudariam nessa tarefa. Veja a lista:

1. Diversificar fontes de energia

Segundo dados da Aneel, 60% das fontes de energia no país são usinas hidrelétricas. Dois problemas aparecem nesse caso: a possibilidade de alterações nos regimes de chuvas, associada ao desmatamento e ao aquecimento global; e as disputas pelo uso da água. O recurso não é só utilizado para gerar energia, mas também para consumo das pessoas, navegação e produção agropecuária.

Heloísa Firmo, do Departamento de Recursos Hídricos e Meio Ambiente da Politécnica/UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), afirma que o país já dependeu muito mais das hidrelétricas. Mesmo assim, ainda é preciso investir em outras fontes.

Quando a gente diversifica a matriz, depende menos da água. É um caminho para diminuir as crises.
Heloísa Firmo

A preferência deve ser por energias renováveis, mas isso não significa dispensar fontes “sujas”, como as termelétricas

Dorel Ramos, professor do departamento de Engenharia de Energia da Escola Politécnica da USP (Universidade de São Paulo) e sócio-administrador da MRTS Consultoria, afirma que o caminho pelas renováveis é algo natural no Brasil, mas que as termelétricas são necessárias para dar balanço ao sistema.

No caso de energia eólica e solar, não há controle: se tem sol, tem produção de energia. Evidentemente, o sistema só com esse tipo de fonte não para em pé. Precisa ter outras [fontes], mas o incentivo deve ser à evolução renovável.
Dorel Ramos

Há ainda a opção de combinar fontes de energia nas chamadas usinas híbridas. Por exemplo, uma usina hidrelétrica pode funcionar com uma solar.

É possível adicionar painéis solares [flutuantes] na área dos reservatórios e, no mesmo lugar, produzir por meio da fonte hidrelétrica e solar. A energia solar adicional tende a compensar as perdas da hidrelétrica.
Dorel Ramos

2. Investir em linhas de transmissão

Firmo, da UFRJ, diz que também há necessidade de investir em linhas de transmissão. Ela afirma que há casos em que sobra energia em uma região do país, e essa energia não pode ser repassada aos demais locais por falta de infraestrutura.

Aumentamos muito a geração eólica no Nordeste, e algumas vezes sobra porque não temos como transmitir [para outros lugares]. Otimizar esse sistema pode aliviar essas crises.
Heloísa Firmo

Diogo Lisbona, economista e pesquisador do FGV Ceri (Centro de Estudos em Regulação e Infraestrutura da Fundação Getulio Vargas), afirma que as hidrelétricas não devem ser vistas como um problema, e sim como um legado estratégico do país.

Outros países adorariam ter armazenamento como a gente tem nos nossos reservatórios. O que precisamos é de uma interligação robusta para aproveitar esses recursos todos, que são variáveis.
Diogo Lisbona

3. Mudar cálculos

Os especialistas também dizem que é preciso revisar os modelos matemáticos usados no planejamento do setor elétrico. Isso porque os cálculos consideram números históricos do regime de chuvas, por exemplo – e esse padrão pode estar se transformando.

A questão principal, segundo Thiago Barral, presidente da EPE (Empresa de Pesquisa Energética), instituição ligada ao governo federal, é se o padrão de chuvas está mudando estruturalmente ou se vai seguir o mesmo padrão observado até aqui.

Estamos vivendo uma sequência de anos [com chuva] abaixo da média na região de interesse do setor elétrico [Sudeste e Sul, onde se concentram as hidrelétricas], e isso obviamente nos traz preocupações.
Thiago Barral

A EPE faz cálculos anuais para estimar de quantas novas usinas o país precisa para suprir a demanda de energia da próxima década. Segundo Barral, a entidade está avaliando a possível mudança de alguns parâmetros das contas, para considerar cenários com menos chuva.

Não existe planejamento que vá zerar os riscos, mas é possível reduzir a exposição a esse risco, preparar-se para ele. A questão principal é que, quanto menor o risco considerado, maior será o custo para a sociedade. Tentamos sempre buscar um equilíbrio.
Thiago Barral

4. Dar opções ao consumidor

Do outro lado, do consumo, também é possível avançar. Dorel Ramos, da USP, defende que o consumidor tenha mais protagonismo no setor, ou seja, que não simplesmente “receba a conta no fim do mês sem ter atuação nenhuma”.

Segundo ele, é fundamental que o mercado seja aberto para todos. Hoje, não podemos escolher de onde vem a energia elétrica que abastece a nossa casa. No futuro, a ideia é de que o consumidor tenha essas opções, como já ocorre com indústrias, por exemplo.

O novo cenário favoreceria os chamados prossumidores, que têm fontes de geração de energia em suas casas ou condomínios, como painéis solares no telhado. Com mais gente tendo esse tipo de recurso, também há alívio para o setor como um todo.

A distribuidora do futuro vai fornecer o serviço de rede, o fio. Isso é um monopólio natural. Mas você poderá escolher de onde vem a energia, que é a mercadoria que transita pela rede, e decidir acionar as suas fontes próprias quando for interessante.
Dorel Ramos

5. Distribuir o consumo e economizar

Associada à abertura do mercado, estaria a digitalização do setor. Na Europa e nos EUA, o consumidor residencial consegue acompanhar o valor da energia ao longo do dia, por painéis digitais. Com isso, é possível escolher períodos do dia para gastar mais energia e pagar menos.

Segundo Denis Maia, CEO da Choice Technologies – empresa que presta serviços para distribuidoras de energia -, é preciso que haja incentivo financeiro claro para que os consumidores economizem ou desloquem seu consumo para outros horários. Isso ajudaria a “achatar” o pico do consumo de energia ao longo do dia, o que traria alívio às usinas.

Quanto menor for esse pico, melhor para o setor. Mas, se a economia for pequena para o consumidor, ele vai fazer esse esforço? Talvez não. Por isso é preciso que esse incentivo seja forte.
Denis Maia

No Brasil, já existe a tarifa branca, em que o consumidor paga valores diferentes pela energia de acordo com o dia e horário do consumo. Mas, segundo Maia, pouca gente sabe que o modelo existe, e a redução na conta não é tão alta quanto poderia ser.

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