Por que o Uruguai tem alta de casos e mortes mesmo com vacinação avançada

O Uruguai está, atualmente, junto com o Chile, na vanguarda da vacinação contra covid-19 na América do Sul. Os dois países já deram a primeira dose em cerca de 60% da população — no Brasil, apenas 25% receberam a primeira aplicação, segundo dados de sexta-feira (11). Apesar disso, o Uruguai registra o maior índice de óbitos em proporção à população do mundo: em média, 16 em cada 1 milhão de uruguaios morrem diariamente por covid-19.

No Brasil, são 9 mortes diárias por milhão, na Argentina, 13,3, e no Chile, 5,8. A média da América do Sul é de 8,8, semelhante à brasileira, e a mundial é de 1,2. Os dados são do site Our World in Data, com informações da Universidade Johns Hopkins, dos Estados Unidos.

Diante do paradoxo de ser um dos dois países da região com vacinação mais avançada, mas ainda assim registrar a maior proporção de mortes, o exemplo do Uruguai tem sido usado por negacionistas brasileiros para colocar em dúvida a eficácia das vacinas e a importância de tomá-las.

O caso uruguaio é uma demonstração da complexidade de uma pandemia, mas de forma alguma indica que as vacinas não funcionam. Ao contrário, elas são muito efetivas, mas não devem ser a única estratégia a ser adotada.

O aparente paradoxo uruguaio se explica pela combinação de três fatores: o excesso de confiança antes da hora, a estratégia de vacinação adotada e a disseminação da variante brasileira.

1 – Excesso de confiança do governo e da população

Países como Reino Unido e Israel foram bem-sucedidos em reduzir as taxas de contaminação porque adotaram lockdown paralelamente à fase inicial da vacinação. As restrições só começaram a ser aliviadas depois que uma parcela significativa da população já havia sido vacinada.

Só com cerca de dois terços ou mais da população inteiramente vacinada se consegue ter um ganho coletivo com a campanha de imunização, ou seja, quando a circulação do vírus se reduz a ponto de evitar também o contágio de quem ainda não foi vacinado.

E as pessoas só ficam protegidas após a imunização completa, com duas doses, um processo que leva várias semanas para ser completado.

O Uruguai ainda não tem sequer a maior parte da população totalmente imunizada: as duas doses foram dadas até agora em 33% dos cidadãos.

Enquanto isso, não há medidas duras para garantir o isolamento social. Na realidade, não houve imposição de restrições obrigatórias mais rígidas no país ao longo de praticamente toda a pandemia. O governo apenas fechou repartições públicas e suspendeu aulas presenciais.

Ao se opor às medidas mais amplas de isolamento social, o presidente uruguaio, Luis Lacalle Poul, tem adotado um discurso semelhante ao do presidente Jair Bolsonaro, no Brasil. Ele diz existir uma “razão filosófica de liberdade” para a sua decisão e prega que, em contrapartida, as pessoas adotem o conceito de “liberdade responsável”.

Essa “liberdade responsável”, aliada a uma campanha de testagem em massa, funcionou durante a primeira onda da pandemia, quando muitos uruguaios respeitaram o distanciamento social e outras medidas, o que levou o país a manter os níveis de contaminação baixos em comparação com os vizinhos.

Este ano, principalmente depois do início da vacinação, em março, esses cuidados foram em grande medida abandonados ou reduzidos.

Na mais recente medição, verificou-se que a taxa de circulação de pessoas no país está apenas 10% mais baixa do que antes de o país declarar emergência sanitária, em março do ano passado.

Os uruguaios pecaram pelo excesso de confiança, pois não tinham ainda vivido o colapso do sistema de saúde que se viu nos países vizinhos, inclusive o Brasil, e por que a vacinação acelerada fez com que se sentissem seguros demais, antes da hora.

2- Idosos não foram priorizados na vacinação

Diferentemente do ocorreu no Brasil, que vacinou primeiro profissionais de saúde e a população mais idosa, o Uruguai só começou a imunizar quem tinha mais de 80 anos depois de trabalhadores da saúde, bombeiros, policiais e professores.

Lembrando que a vacinação só começou em março, enquanto no Brasil, ainda que de maneira mais lenta, a injetada inicial foi dada em janeiro.

Além disso, das duas vacinas disponíveis no país, a Coronavac e a Cominarty, da Pfizer, apenas a segunda era utilizada para a imunização dos idosos, o que fez com que a vacinação desse grupo sofresse mais interrupções por causa dos atrasos na importação das doses.

Essa estratégia deixou justamente o grupo populacional mais vulnerável à doença, os idosos, mais tempo desprotegidos.

Os estudos de efetividade das vacinas no país foram muito animadores. Entre quem recebeu a Coronavac, o número daqueles que adoeceram com covid-19 foi 61% menor, as internações em UTI foram 92% menores e as mortes, 95% mais baixas. Já a vacina da Pfizer reduziu em 78% as infecções, em 94% as internações em UTI e em 94% as mortes.

Ou seja, a maior parte dos novos casos e das mortes que estão sendo registrados no país atualmente é de pessoas que não se vacinaram ou não completaram a imunização.

3- Disseminação da variante de Manaus

Gama, como agora é chamada a variante de Manaus do novo coronavírus, entrou no Uruguai principalmente pela fronteira seca com o Rio Grande do Sul e hoje é predominante no país. Estima-se que seja a responsável por cerca de 90% das infecções.

Considerada mais contagiosa e mais agressiva, a prevalência da gama, antiga P.1, é apontada como um fator decisivo no alto número de novos casos e mortes nesta segunda onda da pandemia.

O nosso vizinho ao Sul também serve de exemplo para desmontar uma das falácias mais difundidas pelos opositores das medidas restritivas no Brasil: a de que basta abrir leitos hospitalares para evitar as mortes.

No Uruguai, mesmo com o alto índice de óbitos em proporção à população, a taxa de ocupação dos leitos de UTI não extrapolou os 90% e não houve um colapso no fornecimento de insumos médicos como se viu por aqui.

Isso porque o país preparou sua estrutura hospitalar para o pior. Mas a capacidade de atender a todos os pacientes não evitou o alto índice de óbitos.

Ou seja, é importante garantir cuidados intensivos para todos que precisarem, mas isso não elimina a necessidade de se adotar medidas para evitar que as pessoas tenham que procurar os hospitais.

O caso uruguaio não depõe contra as vacinas e as medidas de distanciamento social. Ao contrário, comprova a importância dessas medidas.

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