Saiba como criar uma cobra em casa de maneira legal e segura

O caso da cobra naja traficada e mantida em cativeiro em Brasília, em julho deste ano, escancarou a seriedade e o perigo do tráfico de animais exóticos e silvestres. Embora o acontecimento tenha ganhado destaque pelo estado grave do suspeito de tráfico picado pela cobra, ele não é isolado e a história se repete inúmeras vezes Brasil afora. Repetiu-se, por exemplo, no interior de São Paulo no início desta semana, quando a Polícia Ambiental resgatou 15 serpentes e outros animais exóticos na casa de um jovem de 19 anos.

A dimensão do problema foi estimada em números pelo Instituto Butantan: nos últimos cinco anos, eles receberam 398 serpentes vindas de apreensões policiais ou doações voluntárias de pessoas que criavam os bichos ilegalmente, segundo informou Giuseppe Puorto, biólogo e diretor dos Museus Biológicos e Históricos do instituto. A naja de Brasília está entre os animais recebidos por Giuseppe.

O biólogo explica que o tráfico coloca em risco não apenas o animal envolvido como também outras espécies e o novo habitat de uma forma geral, já que podem carregar contaminações de um país ou região para outra. Se for uma serpente peçonhenta, o risco é ainda maior: o jovem picado pela naja, por exemplo, precisou de doações do Instituto Butantan e de importações dos Estados Unidos para obter o soro antiofídico.

É por essa razão que a restrição número um para criação legal de cobras como animais de estimação é que elas não sejam venenosas. Sim, é possível ter uma cobra dentro da lei! Desde que siga, é claro, algumas orientações e restrições previstas pelo Ibama.

Autorização

Desde 1997, o Ibama permite a criação de cobras não peçonhentas como animal de estimação. Mas, para começar, não é possível “legalizar” um animal adquirido de maneira ilegal, como aqueles comprados de redes de tráfico.

Se alguém pretende adquirir uma serpente, deverá ter o cuidado de comprá-la de um criadouro autorizado e certificado pelo Ibama. A cobra deve possuir, também, um microchip, para que tanto o Ibama quanto o dono possam monitorá-la.

Para importar uma cobra exótica – ou seja, que não seja de origem brasileira – também é obrigatório uma autorização especial do Ibama, já que existem os riscos já mencionados de desequilíbrio do ecossistema local. Se um animal que não tem predador natural no Brasil escapa, por exemplo, ele pode desequilibrar todo o ecossistema local.

Portanto, não é apenas a posse de cobras venenosas que configuram crime no Brasil: criar qualquer serpente sem nota fiscal de compra e certificação do Ibama pode acabar em detenção e multa. Tanto é que a maior parte das cobras recebidas pelo Instituto Butantan não são, afinal, peçonhentas: a que mais aparece entre as espécies recebidas pela instituição é a chamada cobra do milho (Pantherophis guttatus), uma exótica que está entre as mais populares entre os criadores de serpentes.

Condições adequadas

Criar uma cobra está longe de ser a mesma coisa que criar um gatinho, e isso também deve ser posto na balança antes de decidir comprar esse “pet” um tanto quanto incomum.

Em primeiro lugar, as características individuais do animal devem ser levadas em consideração, como o tamanho que atingem na fase adulta. Uma cobra pode demandar tanto um terrário quanto um cômodo todo. Pensar no bem-estar do animal é importante e um espaço pequeno demais que não permite o movimento pode deixá-lo estressado.

Além disso, o dono da serpente precisa conhecer a origem dela para determinar as condições de temperatura e umidade ideal. Por regularem o calor de seus corpos a partir da temperatura ambiente, cobras em condições incompatíveis com seu habitat chegam até mesmo a desenvolver doenças. Termômetros, higrômetros (para medir a umidade) e, em alguns casos, lâmpadas UVB, são essenciais para controlar o ambiente.

Por fim, é preciso estar preparado para lidar com a alimentação desses animais: você definitivamente não encontrará ração para cobras nos pet shops. Carnívoras, elas precisam ser alimentadas de pequenos animais como pássaros ou roedores, que podem ser dados a elas ainda vivos ou não.

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